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quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Figuras de Linguagem na Cozinha


PARA QUEM GOSTA DA LÍNGUA PORTUGUESA:




Pergunta:



Alguém sabe me explicar, num português claro e direto, sem figuras de linguagem, o que quer dizer a expressão ‘no frigir dos ovos’?





Resposta:



Quando comecei, pensava que escrever sobre comida seria sopa no mel, mamão com açúcar. Só que depois de um certo tempo dá crepe,



você percebe que comeu gato por lebre e acaba ficando com uma batata quente nas mãos. Como rapadura é doce mas não é mole, nem sempre



você tem ideias e pra descascar esse abacaxi só metendo a mão na massa. E não adianta chorar as pitangas ou, simplesmente, mandar tudo



as favas.



Já que é pelo estômago que se conquista o leitor, o negócio é ir comendo o mingau pelas beiradas, cozinhando em banho-maria, porque



é de grão em grão que a galinha enche o papo. Contudo é preciso tomar cuidado para não azedar, passar do ponto, encher lingüiça demais. Além disso, deve-se ter consciência de que é necessário comer o pão que o diabo amassou para vender o seu peixe. Afinal não se faz uma boa omelete sem antes quebrar os ovos.



Há quem pense que escrever é como tirar doce da boca de criança e vai com muita sede ao pote. Mas como o apressado come cru, essa gente acaba falando muita abobrinha, são escritores de meia tigela, trocam alhos por bugalhos e confundem Carolina de Sá Leitão com caçarolinha de assar leitão.



Há também aqueles que são arroz de festa, com a faca e o queijo nas mãos, eles se perdem em devaneios (piram na batatinha, viajam na



maionese, etc.). Achando que beleza não põe mesa, pisam no tomate, enfiam o pé na jaca, e no fim quem paga o pato é o leitor que sai



com cara de quem comeu e não gostou.



O importante é não cuspir no prato em que se come, pois quem lê não é tudo farinha do mesmo saco. Diversificar é a melhor receita



para engrossar o caldo e oferecer um texto de se comer com os olhos, literalmente.



Por outro lado se você tiver os olhos maiores que a barriga o negócio desanda e vira um verdadeiro angu de caroço. Aí, não adianta chorar sobre o leite derramado porque ninguém vai colocar uma azeitona na sua empadinha não. O pepino é só seu, e o máximo que você vai ganhar é uma banana, afinal pimenta nos olhos dos outros é refresco.



Mas - dando uma canja - as moças apetitosas são sempre um xuxu, todavia quem não trabalha não come, e ficar por cima da carne-seca, lambendo os beiços, só faz ficar chorando de barriga cheia.



A carne é fraca, eu sei. Às vezes dá vontade de largar tudo e ir plantar batatas. Mas quem não arrisca não petisca, e depois quando se junta a fome com a vontade de comer as coisas mudam da água pro vinho.



Se embananar, de vez em quando, é normal, o importante é não desistir mesmo quando o caldo entornar. Puxe a brasa pra sua sardinha



que no frigir dos ovos a conversa chega na cozinha e fica de se comer rezando. Daí, com água na boca, é só saborear, porque o que não mata engorda.



*****CIRCULOU NA INTERNET EM MARÇO / 2011 - SEM NOME DO AUTOR!!!**************




*****

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Blog ANO VI - Parte VI (16/07/2010)


OBS: O texto a seguir faz parte da série comemorativa dos 6 anos de blog Talita Comunica. Foram selecionados alguns dos textos mais visualzados e com temática mais interessante em 2010, ano em que o blog foi criado. Divirtam-se com a leitura!!! 




Grupo OS SATYROS se aventura no uso de uma nova linguagem teatral. A ordem agora é manter os celulares ligados durante a peça!



Entreter, divertir, fazer pensar. São muitas as possibilidades de um espetáculo provocar reações diversas no seu público e, ao que se pode notar, cada vez mais a criatividade no uso de recursos tecnológicos permite uma interação imediata. Mas na vida real a tecnologia tem sido usada para abrandar o afastamento e a solidão.

Com esta visão, o diretor do grupo Satyros, Rodolfo Garcia Vazquez, junto com Ivan Cabral escreveram “Hipóteses para o amor e a verdade”, unindo a interatividade ao vivo por canais remotos com as histórias verídicas de excêntricos moradores da região central da cidade de São Paulo. O espetáculo teve indicação ao Premio Shell de Teatro para melhor direção. 

Quando o público está na ante sala do teatro, um dos diretores se aproxima e explica a proposta do espetáculo solicitando a colaboração da platéia – as regras do jogo são basicamente as seguintes:
1) os celulares devem permanecer ligados de preferência com o viva voz ativo;
2) quando os atores fizerem ligações externas o público deve permanecer em silêncio para que a pessoa que estiver do outro lado da linha não perceba que se trata de uma falsa ligação (pizzaria e tele amizade);
3) se o seu telefone tocar durante o espetáculo, atenda. Se for de algum ator você estará participando do show, e se for uma ligação particular e você estiver entretido com a peça, avise que está no teatro e que retornará a ligação após o espetáculo. Recomendações feitas, vem o frio no estômago ao imaginar o que estará por vir!

Para acessar o local do espetáculo há um corredor com paredes escuras e num dos cantos havia uma cadeira de rodas com uma mulher sentada. Olhei, passei direto, mas voltei a cabeça rapidamente para reforçar a visão, indagando se era uma pessoa mesmo ou apenas um manequim. Coincidentemente do lado de dentro do teatro havia alguns manequins pendurados no teto por uma corrente comprida que os deixava bem perto do chão.

A disposição do teatro e do cenário, assim como dos atores que já estavam à espera do público, dava a sensação de que estávamos dentro da cena, tudo se misturava. Logo no início acontece o diálogo via internet entre dois atores, um de cada lado do palco - que não é bem um palco – e ao vivo a projeção num telão improvisado, muito usado durante a peça. Atrás da cortina a sombra também fazia parte do show, assim como as diversas câmeras apontadas para o público e para os atores, mostrando focos diferentes que da platéia o público não veria.

A tecnologia usada não é novidade, mas o que atrai é forma criativa e muito simples como ela foi empregada, e especialmente por quem e em que momento ela foi usada. Explico. No auge da sua solidão, os personagens recorrem à internet ou ao telefone celular para buscar contato com algum outro ser humano, no meio virtual, ou pessoalmente com um desconhecido qualquer.

O texto provoca uma reflexão sobre o que está acontecendo com as relações interpessoais. As novas tecnologias aproximam e ao mesmo tempo distanciam pessoas. A pergunta que fica é o quanto isso interfere nos sentimentos e acaba influenciando as ações. Os atores retratam o modo como as pessoas lidam com seus sonhos, com os seus desejos mais secretos, se envolvem casualmente em todo tipo de relações e demonstram como eles se sentem diante disso tudo.

Algumas cenas são fortes, impressionam, chocam, incomodam, enquanto outras divertem pela caracterização dos personagens que usam e abusam do sotaque paulistano. Entre eles estão prostituas, transexuais, nerds, gerentes e doidos em geral. Cada um deles conta a história que foi adaptada de uma pesquisa feita por eles mesmos entrevistando os moradores do centro.




ELENCO

A atriz Maria Casadevall mostrou um despojamento notável. Numa das cenas ela surge embrulhada num agonizante plástico que cobre até mesmo o seu rosto. Phedra de Córdebra, que é uma transexual cubana na faixa dos 70 anos de idade, impressiona pela comunicação não verbal... foi ela que me assustou na entrada do teatro! Paulinho Faria está muito engraçado encarnando Adão, um homem que deseja fazer mais filhos que o próprio Adão original. A cena dele "enchendo o balde" atrás da cortina com a sombra projetada foi muito criativa (na foto acima), um recurso simples que enriqueceu muito a peça. Não vou descrever para manter sua curiosidade! Tem Leo Moreira, como o BH (homem bomba), que narra uma parte da sua própria história; Tania Granussi em dois papéis hilários e Esther Antunes, a enfermeira que vivencia o sofrimento da mulher abandonada vivida por Phedra. Além deles, o ator Tiago Leal, que carrega aquele sotaque maravilhoso paulistano, e em meio a risadas faz o público refletir em suas justificativas para ele ser como é. Foi do seu personagem a cena mais linda que fala sobre o brilho no olhar que falta em tantas pessoas. Mas ele só quer fazer amizade, meu! Gustavo Ferreira, com as caras mais loucas possíveis, parece que quer apanhar; acho que a moça da pizzaria, pra quem ele ligou pedindo para ser ouvido em vez de pedir pizza, pensou o mesmo! Todos com participação indispensável e muito divertida, mesmo quando o assunto era coisa séria.

A temática abordada não passa despercebida por nenhum de nós. Todos nos identificamos com pessoas que tem segredos, solidão, um sonho maior e em algum momento da vida acabamos tendo que lidar com isso, não tem como fugir. O tempo todo nós lidamos com as hipóteses para o amor e a verdade...

Muito bem bolado.

E como eu diria a cada um dos meus amigos: obrigada por sua amizade, ela me livra dos perigos da solidão!

Texto: Rodolfo Garcia Vazquez e Ivan Cabral
Direção: Rodolfo Gracia Vazquez
Os Satyros 1: Rua Franklin Rosevelt, 214 - Centro SP - Tel: 32586345

ELENCO: Esther Antunes, Gustavo Ferreira, Leo Moreira, Maria Casadevall, Paulinho Faria, Phedra de Córdoba, Tania Granussi e Tiago Leal.

Site dos Satyros: http://satyros.uol.com.br/index.php/noticias/87

Blog do Paulinho Fariahttp://opankada.blogspot.com/
  
Talita Godoy
16/07/2010

Blog ANO VI - Parte V (11/2010)




TANGO PARA TEREZA


De fato: a idéia parecia complicada e era. Um ciclo de palestras a serem elaboradas, desenvolvidas e aplicadas numa ONG de assistência social tendo como público-alvo alguns dos moradores de ocupações indevidas nos prédios abandonados no centro de São Paulo. O objetivo era levar informações úteis e práticas que pudessem servir àquelas pessoas de alguma forma. O projeto foi apresentado aos meus colegas do curso de Instrutor de Treinamento, em maio de 2010. Os cinco amigos acharam tudo lindo e queriam ajudar pois assim estaríamos colocando em prática toda a teoria aprendida no curso além de ajudar pessoas necessitadas. Tanto que o apelidamos de Projeto de mão dupla, ajudando e sendo ajudados.

Ao entrar em contato com o Leandro, coordenador da ONG e meu amigo pessoal, ele gostou e nos apoiou liberando toda a infra-estrutura que fosse preciso, até mesmo para nossas reuniões de elaboração. Era só arregaçar as mangas para pôr a mão na massa, só que bem nessa hora... que coisa, infelizmente não vai dar... eu queria tanto participar do projeto! E assim a Talita ficou em carreira solo, mas quem mandou gerar a idéia? Agora cuida que o filho é seu. Outra opção seria usar isso como desculpa, fiquei só, mas não sou de desistir, e quanto maior a dificuldade, maior o desafio.

E para relaxar a mente, fui ao teatro. Estou sempre buscando relaxar a minha mente dessa forma, é uma excelente terapia, tente para você ver! A peça da vez foi “Hipóteses para o amor e a verdade”. Soube que os atores entrevistaram pessoas que moram na região do teatro e com as suas histórias foi montado o enredo do espetáculo. Daí surgiu a idéia de investigar o meu público para verificar se o que eu havia programado estava de acordo com a realidade de vida deles. Agora sozinha eu não poderia cometer furos, a quem eu empurraria alguma eventual culpa?! Ainda vou perdoá-los, prometo!  


PESQUISA DE CAMPO
Enfim, a visita técnica. O Leandro me deixou com a Rose, uma agente social que logo de cara me fez caminhar 6 quilômetros da Sé até a rua Mauá, nos arredores da Estação da Luz. Contei a ela que no dia seguinte minhas pernas tremiam! Entramos nos cortiços, falamos com algumas pessoas e se eu entrar em detalhes aqui não paro tão cedo, então vou pular essa parte.

Deixe-me apenas contar da entrevista que fiz com a Flavia, uma jovem na casa dos 25 anos que cria sozinha 3 filhos. Ela é sustentada pelo auxílio do governo, ganha R$40,00 por criança no bolsa família. Perguntei se ela gostaria de trabalhar, ela afirmou que sim, mas está difícil conseguir emprego. Perguntei por quê. Ela respondeu que era por falta de escolaridade e me contou que agora se arrepende, mas quando era criança não levava os estudos a sério e nem se quer aprendeu a escrever. Ela lê um pouquinho, meio devagar, mas escrever é só o nome. Já a Ester, que mora do outro lado da rua, completou o ensino médio mas também está com dificuldade de conseguir emprego pois ela nota que há muita concorrência e ela precisa de qualificação. Perguntei se ela gostaria de fazer um treinamento que a preparasse para uma entrevista de emprego e ela disse que sim, "seria muito bom se tivesse isso lá na ONG", nas palavras dela com um sorriso leve e olhos arregalados, sinalizando esperança.

Achei exatamente o que procurava. O tema que seria alvo do meu novo projeto deveria se limitar a isso - entrevista de emprego. Voltei para casa e cancelei o resto. Apesar da minha boa vontade eu não tenho como abraçar o mundo. Com meus desistentes talvez desse certo, mas sozinha eu fiquei limitada. 

Mas foi ótimo estar presente ali, mesmo que eu tenha passado por momentos que ficam melhores se esquecidos, como a caminhada pelo corredor de chão perfurado, em que pelas brechas se via o andar de baixo, com a madeira que afundava a cada passo meu e da Rose. As paredes altas terminavam com as telhas que cobriam o teto, cheio de fios soltos, pendurados, prontos para dar um curto circuito. No final do corredor, uma escadinha em curva para os fundos do casarão abandonado pelo tempo. Uma poça de esgoto dava ao lugar um cheiro insuportável. A moradora nos pediu desculpas, mas avisou que já iam consertar a fossa. Um único banheiro para muitas famílias, que vivem separadas por cômodos.

Imaginei se elas tinham o que comer, mas vi nas “casas” geladeira, microondas e televisão de tela plana. Onde e como eles conseguem aquilo? Na saída, uma mocinha com o bebê no colo parou a Rose perguntando se ela poderia conseguir uma vaga na creche. Ela estava precisando arranjar outro emprego pois ali no bar não tinha registro em carteira, ela queria coisa mais segura. Ter os filhos numa creche é artigo de luxo, mas é necessidade fundamental para aqueles moradores. Alguns desistem de trabalhar por que não têm com quem deixar as crianças.


SEGUNDO ROUND
Fim do primeiro dia. Deixei passar um tempo para eu assimilar tudo aquilo, refiz a palestra e achei que era hora de voltar para uma segunda visita, e de novo verificar se o alvo agora estava correto. Pedi à Rose que me fizesse caminhar só a metade dos 6 quilômetros anteriores. Ela concordou com o meu apelo, andamos só uns 3 ou 4. Naquele intervalo entre as visitas, continuei trocando email com ela, fazendo perguntas, vendo fotos e um vídeo que me chamou a atenção, era a dona Terezinha falando muito, adivinhando coisas, perguntando o tempo todo, fazendo as pessoas rirem. No final ela mostrou a sua voz incrivelmente afinada, doce e potente. Era Fascinação. E talvez a melhor expressão para defini-la seja essa, uma pessoa fascinante como a sua música.

A Rose me levou até a sua casa: um quartinho onde cabia nos fundos um colchão, no meio um fogãozinho de duas bocas, no canto uma geladeira; nas prateleiras alguns mantimentos e artigos de higiene pessoal. Era ali, que aos 63 anos, ela viva mas fez questão de nos fazer sentar com ela e ouvir sua história do passado de glórias quando ela foi na TV cantar no Programa do Chacrinha, no Sargenteli e tantas outras apresentações. Disse que na casa dos seus pais, no interior, ela tinha álbuns de foto e troféus dos programas de calouros. A Rose sugeriu que quando ela tivesse de novo uma casa para morar ela trouxesse essas preciosidades com ela. A dona Tereza concordou pois eram recordações de uma vida glamorosa, abastada, lembranças de uma vida muito boa e feliz.

Ela nos contou do dinheiro que ganhou cantando na noite e que em pouco tempo houve uma reviravolta, foi perdendo tudo, até a família e os amigos. Atualmente ela só recebia ajuda quando cantava numa paróquia ali perto. Ela estava com pneumonia, mesmo assim fumou um cigarro inteiro na nossa frente. Eu e Rose em fumo passivo. A Rose falou com ela sobre isso, mas ela disse que havia ganhado o cigarro! E tossiu.

Hora de ir, mas antes ela fez questão de nos retribuir a visita com a sua especialidade: música. Perguntou se eu queria ouvir Fascinação, mas essa eu já tinha assistido em vídeo, pedi a outra, e ela cantou Tango para Tereza. A melodia era tão linda naquela voz, e a letra pareceu tão triste que não resisti, segurei as lágrimas, mas meu coração por dentro silenciosamente chorou!

Que pessoa impressionante, ela prendia a atenção de qualquer um com seu jeito artístico até para falar. Ela interpretou a música com a própria alma. Coisa linda de se ver e ouvir.

Desta vez o dia havia começado muito bem. Já nas visitas seguintes, vi novamente muita miséria, mau cheiro, crianças descalças pisando no lixo, algo deprimente, mas que logo deu lugar a outros pensamentos.


SILÊNCIO
Quando saímos de lá em retorno à ONG, falamos na dona Tereza. Foi uma honra tê-la conhecido e só de poder ouvi-la, já me senti bem, como se aquilo por si só já fosse uma missão cumprida. Lembram do texto sobre o "SILÊNCIO"? Ouvir é muito bom. Aposto que ela gostou de ter recebido atenção ser ouvida em dose dupla! A Rose foi muito elogiada por ela, chamada "anjo da guarda". E aquele anjo loiro estaria algumas horas depois velando o seu corpo morto, providenciando um enterro decente para ela, dona Tereza que se foi logo depois que saímos da sua casa. Contaram pra Rose que ela teve uma crise de falta de ar, tentou ir ao pronto socorro mas desmaiou na rua. Foi socorrida, mas no hospital ela veio a falecer com insuficiência respiratória. O líder da ocupação em que ela morava ligou para a Rose, ela foi até lá e definitivamente se despediu da dona Tereza.

No mesmo dia. Ela sorriu conosco, cantou especialmente para nós. Sugeriu que o Leandro organizasse um Sarau na Ong... e quem leu o meu texto sobre Sarau pode imaginar de leve o que foi que eu senti quando ouvi a sugestão dela: que idéia brilhante! Só que agora ela não está mais aqui para cantar. Será que outras Terezas virão?!

Quando fui criticada por alguns amigos sobre o trabalho na ONG, expliquei a minha amiga Dani mais ou menos o seguinte (segue parte do email que enviei a ela):

“Consegui cumprir plenamente o meu objetivo que era ver com meus próprios olhos a realidade de vida daquela gente: miséria plena. Além disso, eu disse pra Rosangela que é deprimente, cansativo, a energia é péssima, mas o lado bom é justamente o choque social. Depois de passar por ali, qualquer pessoa se torna mais humana, mais gente... menos diferente, menos "melhor" que os outros, passa a dar mais valor à sua vida, à sua condição no geral, e passa a dar menos importância a "coisinhas". A experiência foi excelente, de uma grandeza inexplicável. Eu precisava disso para compor a palestra que estou elaborando, e na verdade a primeira visita derrubou todo o trabalho que eu já tinha feito, pois eu imaginava o baixo nível, mas depois eu vi que era muito mais baixo... reelaborei, e precisei de uma última visita para conferir se agora sim eu havia atingido o ponto certo. Fica tranqüila, pois de certa forma gostei de sofrer, foi por uma causa nobre que não vai se repetir, ao menos não tão cedo. Mas se eu sentir de novo "o chamado", aí sim eu vou... disse a Deus: Eis-me aqui, Senhor! E ele me enviou. Só crendo em Deus para entender o que aconteceu no episódio da dona Tereza. Valeu a pena pois tive isso em mente, que foi um trabalho especial e que já foi concluído. Quanto as más energias, eu dei o meu melhor, passei muita coisa boa, depois precisei me recarregar, mas isso Deus fez por mim!!! Já estou ótima hoje, quase no meu normal, ainda meio pensativa, mas em ordem. Obrigada por se preocupar - pode crer que estou nos braços de Deus!!!”

E assim fui levando a sério minha tal missão na vida que é aprender e servir.

A propósito, a ONG tem muito projeto bacana, quem quiser conhecer, se envolver de alguma forma e colaborar com a sua particular responsabilidade social, pode saber mais via site:





Talita Godoy
19/10/2010



Segue o video da dona Tereza cantando Fascinação. Gravado há alguns meses, pelo Leandro, na ONG CIEDS. Abaixo, a letra da música que ela cantou para nós. Postado em homengem à dona Terezinha e à Rose, que também acho ser um anjo!!! Obrigada por me proporcionar aqueles momentos inesquecíveis no seu trabalho, que só eu sei como é grandioso. Rose: você é uma pessoa preciosa!!! Bjs com carinho, Talita.

E canta, dona Tereza, faz o que a senhora mais ama nessa vida:





Tango para Tereza


Composição: Evaldo Gouveia e Jair Amorim

Hoje alguém pos a rodar
Um disco de Gardel no apartamento junto ao meu
Que tristeza me deu

Era todo um passado lindo
A mocidade vindo na parede me dizer para eu sofrer
Trago a vida agora calma
Um tango dentro d’alma
A velha história de um amor que no tempo ficou . . .

Garçon ponha a cerveja sobre a mesa
Bandoneon toque de novo que Tereza
Esta noite vai ser minha e vai dançar
Para eu sonhar . . . .

A luz do cabaré já se apagou, em mim
O tango na vitrola, também chegou ao fim
Parece me dizer
Que a noite envelheceu
Que é hora de lembrar
E de chorar . . . . .




*** *** ***

Blog ANO VI - Parte IV (22/08/2010)


FOMENTO DA CULTURA E DA EDUCAÇÃO POR MEIO DA LEITURA



Era gente indo e vindo, fazendo fila no carrinho de sorvete ou no churrasquinho, já tão tradicional em São Paulo. Fila pra pegar o ônibus de graça, fila de carros andando lentamente, mas todos, um a um, cumprindo a missão do dia: assistir a uma parida de futebol. Bem que parecia, mas não era isso, não. O povo estava indo visitar a Bienal do Livro!

Correria toda para comprar algum exemplar de lançamento? Pegar autógrafo de algum autor? Poderia ser também para participar de uma das tantas palestras, mesas de bate-papo ao vivo, encontros de educadores, escritores, blogueiros e tuiteiros, ou contações de histórias com marionetes ou atores reais.

Teve quem visse pela primeira vez algo que era coisa do futuro, mas já está nas bancas: o livro digital... Eu morria de medo disso, mas confesso que gostei muito da novidade! Fisicamente ele parece um MP4 do tamanho de um livro médio; as funções são praticamente as mesmas, ao invés de acessar música o leitor acessa o livro, página por página com seus textos e ilustrações. Ele grifa quando quiser, faz anotações, marca onde parou a leitura etc. Porém, não dá para dobrar a orelha, não dá para folhear, não dá para... evitar sua chegada e que os novos leitores o prefiram numa geração bem próxima.

Quem me mostrou o Cool-er (cool, algo legal em inglês, junto com ler em português, ou uma leitura legal, originou o nome daquele tipo de periférico que eu vi na feira) foi o Daniel, um funcionário da empresa Itapemirim, que atua num projeto que transformou o ônibus em uma Biblioteca Móvel. Ele viaja por todo o país e fica em média 03 semanas em cada cidade.

O bacana, segundo ele, é que a pessoa não entra ali para ler um livro inteiro, mas para se aproximar do livro, conhecer a variedade, geralmente perguntam sobre a Biblioteca local e dizem que vão passar a freqüentar, pois adoram livros! Então por que não lêem?! Hábito, minha gente, tudo é questão de hábito.

E ainda sobre os livros digitais, perguntei ao Daniel se a novidade está agradando, ele disse que sim, mas que as pessoas olham, até acham interessante, mas preferem ainda o livro tradicional. As crianças familiarizadas com as novas tecnologias se divertem mesmo com o livro impresso. Ufa, no fundo me deu um certo alívio ouvir isso!

E adianta discutir o assunto? Talvez o mais importante seja a leitura em si; em papel impresso ou em meio virtual, o conteúdo estará presente e isso é fato. O “como” sinceramente não me incomoda. Assim como não me incomoda mais pensar nas tecnologias que terei dificuldade em acessar no futuro, pois nesta feira eu percebi que elas já existem e é delas que eu tenho que correr atrás.

Tem tanto recurso disponível, que mal aceito um e já vem outro! Mal descubro e passo a conhecer um, e lá vem o próximo. Ou a pessoa pira de vez ou ela busca se informar, observa o cara do lado que entende do assunto, pergunta, conversa, pesquisa e assim vai.

Fazemos parte de uma geração que teve o privilégio de ver um grande salto na tecnologia e nas relações interpessoais. Sim, pois não apenas muda o meio como a comunicação se dá, mas a forma como nos comportamos e nos expressamos por meio deles. Há quem seja totalmente equipado com a mais alta tecnologia sem ter o que dizer ao outro! Como ainda há o que deseja gritar aos quatro ventos mas ainda não achou a ferramenta certa pra isso.

E assim vamos nos adaptando para uma nova era cultural. E já prevendo que ela logo poderá mudar de novo. Espero que não mude o hábito de ler, falar e ouvir, olhar nos olhos, quem sabe até melhore a observação sobre o que diz o brilho nos olhos do outro! E que cada um saiba o momento de se retirar, ficar quieto, isolado, refletindo, buscando coisas diferentes, e saiba também a hora de dar um off na máquina e voltar a se relacionar com pessoas ao vivo.

Foi o que fizeram aquelas milhares de pessoas formadoras da grande muvuca em frente ao Anhembi, no penúltimo dia da feira do Livro em São Paulo. Fico feliz em ver com isso o fomento da cultura, da leitura, da educação, a busca pelo novo, o encontro de pessoas que me fazem acreditar num país melhor.

Só a educação salva!

Termino com uma provocação a você, que preferiu ficar em casa e ler um Blog: tem idéia do evento monstro que você perdeu???






Talita Godoy
22/08/2010




Blog ANO VI - Parte III (22/10/2010)


ENTRE ISOLAMENTOS E APROXIMAÇÕES, NOVAS TECNOLOGIAS CONTINUAM TRANSFORMANDO
SENTIMENTOS E RELACIONAMENTOS. OU NÃO?!


Pelo que entendi, parece que é assim: sempre que surge um novo meio de comunicação fica a dúvida se ele vai derrubar o outro, anterior a ele.

Um exemplo foi quando surgiu a televisão, que existe há mais de cinqüenta anos. Naquela época a pergunta que tanto incomodava era se a TV seria capaz de acabar com o rádio. Não acabou, mas de certa forma se apropriou dele. Depois veio a internet, que por sua vez de certa forma se apropriou do rádio, da TV e talvez do livro impresso.

Uma imagem interessante do passado, era a família reunida assistindo a programação do horário nobre na televisão. Todos em silêncio, prestando atenção nela. O que antes era uma reunião familiar, com todos conversando, agora era uma reunião familiar silenciosa, mas ainda juntos.

Atualmente, cada um fica diante do seu próprio computador, geralmente sozinho, fechado no quarto, seja ouvindo música, olhando vídeos, pesquisando, escrevendo, cada um na sua. Mesmo na busca por companhia, nas salas de bate-papo, não dá pra saber quem é verdadeiro e quem é falso. A relação ali é puramente virtual.

Mas não é de todo ruim. Com as redes sociais, foi possível reencontrar pessoas queridas, algumas até mesmo esquecidas, outras que estão do outro lado do país ou do mundo, vivendo em outro mundo. Alguns arrumaram amores, amigos, esclareceram fatos do passado, colocaram a vida em dia. Encontraram comunidades de pessoas que pensam o mesmo que elas, que curtem as mesmas coisas, que são diferentes sendo iguais ou que são iguais, mesmo sendo tão diferentes! Poder de aproximação.

Insisto que às vezes é muito bom se isolar para fazer buscas, pesquisar, ler, sem querer encontrar algo interessante que leva a outra descoberta, e assim a gente percebe que faz parte de um mundo incrível, cheio de possibilidades. Mas como tudo na vida, internet também tem a dose certa, que cada um precisa saber medir e usar.

Há um excesso nas novas gerações que os tornam pessoas com a cara metida no digital o tempo todo, seja nos games, nas redes sociais, mas o que parece é que elas se esquecem que aqui fora existem pessoas esperando por elas, que querem ou precisam se relacionar com elas. Esses internautas exagerados deixam de movimentar os músculos, não ligam para mais nada além daquilo que estiver dentro da máquina, são muito isolados, alienados.

O lado bom é que alguns se desenvolvem bem sozinhos, aprendem a fazer escolhas, administram o seu tempo na rede, imprimem em tudo o que fazem uma certa dose de personalização, acompanham bem as novas mídias, curtem tecnologia e fazem um uso positivo a seu favor sem deixar que as tecnologias o dominem. Talvez sejam essas as mentes que vão preparar as tecnologias do futuro.

Agora pense comigo: os meios de comunicação mudaram também a nossa forma de sentir a vida? Estamos programados para novas emoções criadas a partir dos meios digitais? Nossos relacionamentos mudaram e não percebemos isso? Continua tudo igual nesta área? O que mudou foi apenas o modelo comunicativo ou o nosso cérebro hoje processa os sentimentos de outra forma? A interatividade é instantânea, dá tempo de sentir, processar e reagir tão rapidamente assim?

Já viu a força que tem um “post” no Orkut, no twitter, no blog? Imagine o problema que dá uma informação errada! E que reação ela pode causar? Entra em cena a questão da transparência e até mesmo da humildade.

Conheci uma jornalista na Bienal do livro, a Vani, com quem falei alguns minutos sobre isso, ela me contou que uma pessoa escreveu um palavrão na rede e ela reclamou pelo nível da linguagem. No mesmo instante a pessoa se desculpou publicamente, concordamos que o gesto foi nobre, ela poderia apenas ter deletado o palavrão!

O assunto surgiu durante um bate-papo ao vivo num dos estandes da Bienal do Livro em São Paulo. Era um encontro de tuiteiros que reuniu dois secretários da Educação (SP e RJ) e o diretor de um espaço cultural em São Paulo (Casa das Rosas).

A secretária do Rio, Cláudia, relatou que uma vez escreveu no twitter uma palavra com erro de ortografia. Gentilmente uma outra pessoa que leu postou na mesma hora a correção; a secretária se desculpou e agradeceu. O fato gerou uma matéria num dos grandes jornais do Estado do Rio de Janeiro comentando que errar é algo que acontece até com os educadores, e que aceitar e corrigir não é demérito algum. Não anotei as palavras exatas, mas a idéia foi bem essa, deixar o ego de lado e ser humilde, interagir de forma positiva e imediata aos fatos.

É o que entendo por relacionamento digital. Exposição para buscar e ser buscado, achar e ser achado, criticar e ser criticado, ensinar e aprender. A vida é assim, com seu lado bom e mal, vamos conduzindo da melhor maneira possível.

O que não vale a pena é entrar em intermináveis discussões na tentativa de prever o futuro, o que será que será... mas não pude resistir à provação feita, também na Bienal, em uma das palestras que assisti, de onde me vieram todas essas reflexões. O professor de comunicação da ECA/USP, Massimo de Felicce, disse que se hoje a internet deixa cada um isolado no seu computador pessoal, em pouco tempo será a vez dos telefones móveis deixarem as pessoas ainda mais ligadas o tempo todo em suas redes sociais. O cérebro já está se adaptando a esta nova maneira de se comunicar e deverá em breve criar novas conexões para uma diferente linguagem com diferentes informações? A tal provocação é: a sociedade está pronta para isso? Já somos nativos digitais?

Não existe ainda muita diferença social em nosso país com tantos analfabetos digitais, pessoa sem o devido acesso mínimo para viver num mundo assim, tão hi-tec? Eu mesma sei quanto sobre isso? Vou me isolar mais ou vou me conectar mais?

Contudo, uma coisa é divertida de se imaginar: que no futuro os velhinhos estarão todos na rede, com seu celular móvel, fazendo contato social, ou mesmo de trabalho ainda, trocando informações de todos os gêneros, marcando encontros, bailes, viagens, curtindo muito a vida ao vivo, por causa da internet.

Ops, será que isso já está acontecendo enquanto eu continuo a empregar meu precioso tempo aqui pensando??? Com licença eu vou à luta!


OBS: Os vídeos da Bienal estão no Youtub. É possível localizá-los como bienaldolivrosp. Segue um deles no post anterior (por incompetencia da minha parte não consegui baixar diretamente aqui! rs Sorry!).




Talita Godoy
22/10/2010

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Blog ANO VI - Parte II (05/09/2010)


Convite a ouvir o silêncio (CALLATE!)



Feriado é uma delícia para quem mora em São Paulo, numa rua movimentada. A primeira coisa que noto é o silêncio que reina. E naquele fim de semana prolongado, aproveitei para ler, revi alguns estudos que fiz, um deles: o equilíbrio entre falar e ouvir. Faço um convite a esta breve reflexão.

Um dos primeiros segredos da comunicação é saber escutar. Ouvir o outro proporciona a descoberta daquilo que ele pensa, o que sente, seus desejos, seus valores, permite identificar qual é a sua linguagem. Não adianta falar japonês com quem só entende português, mas às vezes é o que fazemos! A fala expressa idéia, pensamentos, sendo preciso que se faça um silêncio interior para que eles se formem, possam amadurecer, sofram mudanças, melhorem.

Ao se observar duas pessoas envolvidas numa calorosa discussão sobre certo assunto, é possível notar que a reação de um é armar-se com palavras que serão usadas primeiramente para se defender, depois para atacar, enquanto o outro busca em seu repertório palavras para retrucar, rejeitar, e tudo isso sem o menor intervalo entre as falas. Depois que percebi isso achei tão estranho – para não dizer feio - que até parei de discutir!

Num diálogo assim falta a pausa que dá o tempo necessário para uma leve reflexão, análise da informação recebida para verificação e assimilação das idéias apresentadas pelo outro. Com a propriedade de quem pensou antes de interagir é possível chegar a resultados eficientes e relevantes dentro de um processo de comunicação.

Saber ouvir é uma das técnicas de comunicação mais desafiantes e das mais ignoradas. A eficiência da comunicação é melhorada ou dificultada conforme a capacidade que se tem para ouvir: por este simples ato se pode detectar a idéia central; controlar as emoções; avaliar a mensagem recebida. E automaticamente é possível ouvir a si mesmo em conversas internas - a própria compreensão se expande. Vale a pena arranjar tempo para isso ou não vale?

Por outro lado algumas pessoas se retraem para falar por pensarem que ninguém as ouvirá, que falar seria um desperdício de tempo e energia. Este se sente desrespeitado, invisível. Ouvir é um ato de respeito e de valorização. Não ouvir o outro dificulta o exercício de ouvir a si mesmo. Julgamentos e preconceitos também impedem um indivíduo de ouvir o outro, mas ouvir sem resistência desperta a atenção e facilita a reflexão. Ouvir o outro, ouvir o silêncio, ouvir a si mesmo.

E refletir é devolver uma imagem, pensar cuidadosamente e criar condições para a comunicação se estabelecer de maneira eficaz. Um bom exercício para se aprender a ouvir é analisar qual é o seu relacionamento pessoal com o silêncio, perceber quando ele é confortável ou desconfortável e o que o torna assim. Reflexões deste tipo podem trazer um novo valor ao ato de ouvir. O silêncio se escuta. Callate!




              


Foto: Paz em Louiswille Lake Tx - EUA


Talita Godoy
05/09/2010

Blog ANO VI - Parte I (24/08/2010)


“Já fomos perfeitos um dia: no momento em que saímos do ventre...”


Hoje eu vi O homem com a bala na mão. Ele pensava em suicídio, mas antes de cometer um crime contra si mesmo, ele queria muito falar. Falar e nos fazer pensar. Ele abriu a porta da sua casa, nos convidou a entrar no seu quarto. Sentados ali, diante dele, presenciamos um homem com um pouco mais de 30 anos, desabafando seus ressentimentos.

Ele contou aos presentes algo sobre a vida e a morte do seu pai, que abandonado pela mulher criou o filho por alguns anos, mas acabou com a sua própria vida ali mesmo onde estávamos. Sentado na janela, deu um tiro na cabeça.

Também ouvimos a história da vizinha que andava nua pela casa com a janela aberta, até fechá-la, deixando ele louco de desejo por ela. E na mesma janela, este homem viu um outro, que, sentado com os pés para fora, abriu os braços e se deixou levar, sem um grito, sem uma palavra, apenas inclinando seu corpo para a frente, e num piscar de olhos a vida se foi. Antes disso o que houve?

Quantos pedidos de socorro essas pessoas deram até o crime final? Ninguém os ouviu? Alguém fez que não viu?

Notei que algumas pessoas saíram do espetáculo meio baixo astral, reflexivas demais. Eram pessoas que tiveram amigos ou conhecidos que chegaram ao seu limite e apertaram o gatilho. E pelo que conversamos sobre o assunto, a sensação que fica é essa mesma, de peso, de uma certa parcela de culpa por não ter reagido quando era possível fazer alguma coisa. Um abraço talvez, mudasse a questão. Estamos disponíveis pra isso? Quem quer se envolver?

De quem é a responsabilidade quando se dá as costas para alguém que precisa desesperadamente de um pouco de atenção?



O ator  e autor do monólogo, Paulinho Faria, foi audacioso na escolha do tema.  De fato, é fácil desprezar ou agir preconceituosamente com quem precisa de ajuda; em geral ou julgamos, ou fugimos do assunto.

É desagradável, assumo, não quero nem pensar em coisas do gênero. Mas às vezes vale a pena levar um tranco desses. A linda música que tocou no final do espetáculo, foi composta por um garoto muito talentoso que recebeu na internet apoio, numa dessas comunidades de apologia ao suicídio, para se matar. E ele o fez!

No início do espetáculo o ator colocou no chão, num canto estratégico, um papel dobrado, e nos disse que era uma carta para ser lida quando ele se fosse. Quando tudo acabou, alguém pegou o papel do chão, e lá estava o relato deste caso, um entre tantos milhares que desprezamos.

O tempo todo o movimento e o tom da luz avermelhada, o sutil som da goteira e do tic-tac interminável, despertavam no público tensas sensações. Que incômodo! Paulinho Faria estava tão entregue quanto envolvente. Eu diria que foi desagradável, e por isso mesmo um grande espetáculo!

Meu coração demorou uns 20 minutos para desacelerar! Amei a sensação... Isso porque além da atuação do intérprete, o texto  aborda questões que mexem com o espectador: o silêncio, o tempo, o momento, o estado da felicidade, e a morte como sendo o fim ou o começo de algo novo. Ele assusta e ao mesmo tempo sensibiliza com as reações flutuantes do seu personagem, que despeja sobre o público o que pensa, o que sente. 

E para complicar um pouco mais, propõe ao público que tudo aquilo não passe de uma grande mentira, que ele possa estar brincando conosco assim como nós brincamos com ele ou com outras pessoas o tempo todo. É sério! Saí de lá pensando: que tipo de trocas andamos fazendo hoje?


Sabe aquele cara estranho, que vive trancado no seu canto? Ele pode estar com a bala na mão. Se você perceber, por favor, não o despreze, talvez um gesto simples, como um abraço, possa ajudar.


OBS:
A apresentação única aconteceu em 24 de agosto, com a casa cheia - foi um sucesso!
Tinha gente sentada até no cantinho da escada. Acho que alguns não compreenderam, outros ficaram chocados, era espetáculo ou não era? Ele se matou ou não? Se houver uma segunda chance, eu aviso para você mesmo testemunhar os fatos.

Parabéns ao grande ator e agora autor, Paulinho Faria!!!


Talita Godoy
24/08/2010

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Blog - ANO VI


Aniversário do Blog


Maio passou, e com ele mais um aniversário do Blog! Fico feliz e honrada com a os mais de 30 mil acessos, mesmo sem divulgação. Escrevo simplesmente porque gosto e porque compartilhar é uma dádiva. Mas como sou da moda antiga e meio tímida, deixo para as nuvens e os ventos carregarem meus textos por aí. Quem sabe um dia eu me modernize e passe a usar redes sociais também para isso, não seria uma boa?! 

Diferentemente dos anos anteriores, em que eu republicava apenas um texto favorito, dessa vez resolvi comemorar mais uma temporada de Bog com a publicação de seis deles, 4 publicados pelo amigo jornalista Guilherme Azevedo, do portal Jornalirismo, em 2010, e 2 em homenagem ao amigo, grande profissional das artes em geral, Paulinho Faria - ator, diretor, escritor e professor de Jiu-Jitsu, sendo o primeiro deles referente ao grupo de teatro Os Satyros. 

Aos antigos leitores, bom para recordar, aos novos, bom para conhecer meus tempos de afinco, boa combinação entre tempo e suave inspiração para produzir. Pois bem, que venham mais!!!







Com carinho,

Talita Godoy
Maio/2016



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terça-feira, 26 de abril de 2016

Reflexões e Teorias da Comunicação - Parte III



Reflexões e Teorias da Comunicação
(Continuando - Parte III)




Propaganda – Papel decisivo

Harold Lasswell (1902-1978), um dos primeiros – e principais – investigadores da Mass Communication Research, afirma que durante a Primeira Guerra Mundial a propaganda havia tomado um papel decisivo, tanto nas situações de conflito como na moral dos exércitos. Em 1927 publica “Propaganda - técnicas no mundo da guerra”.
Assim como haviam percebido que a repetição das propagandas reforçava no consumidor a ideia e o hábito do consumo, a repetição de determinadas palavras se mostrou uma técnica eficiente na política. Por exemplo: usar repetidas vezes a palavra “progresso” tornava o discurso mais influente.

A teoria de Lasswell se tornou conhecida como “injeção hipodérmica”, consistia de uma visão instrumental da comunicação e uma confiança cega na onipotência dos meios.
Era influenciada pela psicologia conducista, intenta analisar e conhecer os estímulos que produzem determinadas respostas nos indivíduos. Defende o emprego de procedimentos estritamente experimentais para estudar as condutas.
Como visto, a comunicação parte de outras áreas, como antropologia, sociologia, psicologia e vai além, chegando no campo da ficção, como provou Orson Welles.

Na noite de 30 de outubro de 1938, o ator e diretor cinematográfico Orson Welles (de Cidadão Kane), aterroriza milhões de americanos. Inspirado na novela de ficção científica “A guerra dos mundos”, do filósofo e escritor inglês H. G. Wells (1866-1946), o relato radiofônico de Welles conseguiu confundir a população que, crendo que se tratava de um caso verídico, entrou em pânico.
Este caso emblemático reafirma a concepção da influência onipotente dos meios de comunicação de massa.








Teoria da comunicação no modelo de Lasswell

Lasswell publica, em 1948, o artigo “Estrutura e função da comunicação na sociedade”.
Preocupado com as ameaças políticas que podem alterar a ordem social (o fascismo, o comunismo, o protesto social), estuda a eficácia na comunicação com o propósito de assegurar o controle social.
Segundo sua teoria, a comunicação cumpre 03 funções principais: A vigilância do entorno (levada a cabo pelos agentes da segurança e suas ameaças); é posta em relação entre os setores da sociedade (por parte do periodismo e dos líderes de opinião) e a transmissão da herança social, por parte da escola e da família.

Funcionalismo Estrutural – Teoria de Merton

O Funcionalismo Comunicativo, desenvolvido por Robert K. Merton (1910-1989), se conhece também como funcional estrutural.
Segundo Merton, existe um certo grau de adequação, ou estabilidade, entre as instituições e os valores de uma sociedade.

Para fundamentar sua teoria, ele se apoia na distinção entre funções e disfunções:

As funções são as condutas que reforçam e asseguram o funcionamento e a estabilidade social.

As disfunções, ao contrário, as alteram.

Exemplo: Campanha #partiuteste  (quantos aderiram? Quantos tiveram alguma restrição em fazer o teste de AIDS no período de carnaval 2015?).

Merton ressalta, com insistência, o conceito de equilíbrio. Define qualquer alteração da ordem social como uma disfunção: circunstância potencialmente nociva para a ordem social.

Como outros sociólogos funcionalistas, Merton vê nas mudanças sociais mais que uma possibilidade de melhora, uma ameaça. Para Merton, com o mass media nasce uma nova era que potencializa as possibilidades de organizar e regular o funcionamento social.

Segundo sua teoria, os meios de difusão de massa teriam as seguintes funções:
    Concedem status hierárquico a pessoas e instituições que compartilham valores com o público, e os dotam de poder de sugestão; Aglutinam os gostos, as atitudes e os valores da multidão; Quanto mais ativas são as mensagens, mais passivos se tornam os receptores-consumidores; O “líder de opinião” proporciona uma aparência de individualização em uma sociedade massificada e unificada. Exemplo: queremos parecer únicos (personalizados) e ao mesmo tempo precisamos nos sentir pertencentes e aceitos por um grupo (identificação com iguais).


Teoria de Lazarsfeld

O sociólogo Paul Félix Lazarsfeld (1901-1976), sustenta em “As eleições acabaram” (1948), que os meios de comunicação e as campanhas eleitorais não influenciam diretamente sobre os votantes. As pessoas tendem a votar no candidato que prevalece em seu grupo social primário e não no qual aparece mais na mídia. Para Lazarsfeld, pessoas votam influenciadas pelos seus grupos sociais (família, igreja, clube social), o que o permite montar o seguinte esquema de influências:  

- Meio de comunicação de massas - Fatores intermediários (Tendências existentes / Entorno) - Condutas


Para refletir
Segundo Klapper, a comunicação de massa não é causa única e suficiente para determinar a influência, mas sim cooperam e reforçam tendências existentes.








FONTE: