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sábado, 2 de outubro de 2010

CANTORIA

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Vingança
Cauê Procópio


Ô, ô, ô, sou do brejo sim senhor
Sou neto do véio Zeca
E Também de Agenor

Quando Gonzaga veio em casa, me ensinar a
andar de jegue, veio com um filho de Anália,
mas o diabo que te carregue, o bicho não
parava em pé, querendo me aporrinhar, ou
andava de ré, ou não saía do lugar. A cela
tava frouxa, eu caí de perna pro ar, e pra me
livrar dum coice, tomou um no meu lugar.

Nesse dia eu conheci o Chico de Currubá.
Minha primeira lambú, foi Cota quem cozinhou
e também disse que ia assar um ganso que me
picou.
Celsino boca-preta, como chamavam meu pai,
se lamentou comigo: E essa chuva que não cai.
Na estrada de Lagoinha, minha primeira
aflição, não era cobra nem galinha, era um
bicho do cão! Em Condeúba, eu me dei
conta, era minha imaginação.

Uma vez fui eu e Chico, pras banda do buraco lôco,
onde os cabra risca a faca e sangra por muito pouco.
Era um casebre bem cuidado, com luz vermelha no lampião,
lá encontrei Mané da Baixa, Catulino e Espiridião.
Chico grudô numa quenga, e falou preu num avexar...
Que escolhesse a rapariga, que ele que ia pagar...
Pras coisa boa da vida, nasceu Chico de Currubá.

Ainda hoje me lembro moço, da minha primeira paixão.
Uma menina cigana, que queria ler minha mão.
Ficou três dias em Condeúba e depois foi pra Caculé.
Eu segui a caravana até a Baixa do Jequié.
Meu pai e Chico me buscaram, falando que cigano era tudo ladrão.
Disse ao meu pai com respeito: pra mim isso é invenção,
porque os beijinho que dei nela eu guardo no coração.

Muito tempo depois, lá no Cachorro Sentado, b
em ao lado da mangueira, em frente à casa de Abelardo,
três cabras me pararam, prometendo uma sova por mulher.
Disseram que eu tinha tirado, a filha de um tal Coroné,
que encomendou o meu coro e minha orelha como trofé.
Não sei de onde surgiu, mas veio Chico, saltador,
derrubou dois num coice só e o outro se mandou.
Da sova que prometeram, Chico de Currubá me salvou.

Foi a conta de três dias, até a merda se formar...
Pegaram Chico numa emboscada.
O Coroné veio se vingar.
O tiro foi certeiro, não teve salvação.
Ainda cortaram-lhe a orelha e lhe marcaram com um ferrão.
As iniciais do Coroné, no seu peito, no coração.
Eu bebi o meu amigo, o meu preto, meu salvador.
Eu rezei a ladainha e pedi a nosso senhor:
dai-me força pra vingança, contra o Coroné matador.

Ô ô ô ... Na venda de Zé-mola-faca, eu comprei a munição.
Meu plano calculado com muito ódio e devoção.
Passei dois dias no mato à base de água e ração.
Nas terras do Coroné, era só festança e algazarra.
Os cabras que mataram Chico, só na cachaça e na risada.
Eram bem uns cem metros do matagal onde eu estava.
Era uma espera, uma fadiga, até o Coroné sair de casa.
O meu tiro foi perfeito... Foi bem no meio da cara.

A minha morte já tinha até a data marcada.
Se não fugisse pra São Paulo, já estava embaixo da enxada.
Em Vitória da Conquista, eu tomei um Itapemirim.
Cheguei na rodoviária, sem saber pra onde ir...
Mas eu não me arrependo, com gosto carrego a cruz.
E pra iluminar a minha vida, eu fui para a Estação da Luz.
E agora vejam só, tenho até filho na cidade
e aos senhores ouvintes, desculpem a sinceridade.

Ô, ô, ô, sou do brejo sim senhor
Sou neto do véio Zeca
E Também de Agenor








Tem mais Cauê Procópio no myspace:
www.myspace.com/caueprocopio




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